reconheci à primeira vista os brincos coloridos desenhados numa fantasia de país tropical. a Helena não passava de um domingo à noite de collants rasgados no banco de trás. surpreendeu-me o encontro inesperado e as rugas por baixo dos olhos e em redor da boca. contou-me das viagens forçadas por países asiáticos e quis saber do meu jantar daí a bocado. escolhemos um sítio quente numa rua estreita com candeeiros presos em fios muito esticados que atravessavam a rua de um lado ao outro como que a prender os prédios num frente a frente embaraçoso. parecia que se os cabos se partissem os prédios se afastariam e a rua deixaria de ser estreita. falou-me da custódia perdida do filho que não sabe quem é o pai e do quarto abafado durante mais de um ano com horas muito mais longas do que noutro ano qualquer. falou-me dos buracos negros onde aterravam as viagens a bordo de ressacas movidas a explosões nucleares por todo o corpo e da morfina a chegar aos dedos dos pés. ouvi tudo em silêncio a pensar porque razão os fios aguentam prédios monstruosos e se revelam incapazes de prender os laços finos da ternura.
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terça-feira, 2 de novembro de 2010
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