segunda-feira, 16 de agosto de 2010

depois casámos aos poucos. do outro lado da rua havia uma capela com um sino que tocava de hora em hora. sei porque me diziam. era quase surdo quase não o ouvia. a vizinha da curva nunca tinha as galinhas dentro da cerca e elas cagavam-nos o pátio todo. digo isto porque sentia a merda na sola dos pés andava muitas vezes descalço. às vezes ela usava um lenço na cabeça e eu perguntava-lhe porquê ela nunca me dava uma razão. eu habituei-me. nunca havia razões. habituei-me a muitas coisas. ao fim da tarde apanhava no quintal a alface para o jantar. nunca picava a cebola. ficava lavada em lágrimas e ela não suportava lágrimas. deitava-se sempre de costas para mim dizia que era para sair mais rápido se houvesse um incêndio na casa. nunca faziamos sexo. eu às vezes fazia amor com ela de olhos fechados e só com a imaginação. eu era cego e imaginava muito. sabia que ela era bonita porque aos domingos ia ler debaixo da figueira. quando chovia a lareira era acesa e eu sentava-me a imaginar a chama reflectida no olhar dela. íamos à feira na vila e ela pegava-me na mão para eu apalpar coisas novas. não me lembro dos cheiros e perdia-me muitas vezes das pessoas. todos me sabiam levar a casa e ela agradecia sempre. depois morri quando ela estava para casa da mãe. lembro-me de ela ter voltado uma semana depois para a missa de sétimo dia com uma franja que não lhe ficava nada bem. eu era cego não consegui ver mas ouvi a filha da vizinha dizer baixinho.






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