sexta-feira, 20 de agosto de 2010

atravessei a rua por entre dois amantes um filho não era brincadeira nenhuma. apareceu-me uma senhora eu acabara de tocar a campainha notou-me cansado e sorriu como quem deseja enfiar-me energia pelos olhos adentro. esperou que eu falasse e eu esperei dizer alguma coisa não sabia já o quê. agradeci ou talvez tenha pedido desculpa antes de virar costas e voltar a atravessar a rua. era necesário convencer-me de que foder era o mais importante. detestava quando eram injustos comigo. prevenia-me. antecipar era a solução. tornar-me no que nunca fui mas que sabia que me iam acusar. era única forma de não serem injustos comigo. um filho era a sério. e no fundo tudo acabava bem. eu era acusado e os acusadores tinham sempre razão. reparei no anúncio na porta que nunca era aberta porque havia um vaso enorme à sua frente. li o anúncio três ou quatro vezes sem a concentração suficiente para o perceber completamente. esqueci no segundo seguinte o pouco que havia percebido. a rua ficara mais larga e as pessoas apareciam com mais frequência. mais pessoas apareciam. mais pessoas me pareciam importar-se menos. as pastelarias são mais atraentes do que as tabacarias e eu continuo magro como um pau de virar tripas. não demorei mais do que dois encontrões a decidir-me entrar. aprecio o mobiliário de madeira pouco envernizada e traves grossas. cadeiras pesadas sabem-me melhor do que doces de amendoa amarga.




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